A senzala e as nossas prisões

No "massacre do Carandiru" foram assassinados 111 detentos pela polícia. (Foto: Esquerda online)

O Brasil amanheceu hoje com o eco de mais um massacre em uma de nossas inúmeras prisões. Mais um. Desta vez foi no Estado do Rio Grande do Norte e a contagem governamental falava inicialmente de potenciais dez mortos, mas, depois, visto que não conseguiria lidar com o cenário – e uma vez que o governo alugou um caminhão frigorífico para transportar corpos e pedaços destes ao legista – ficou claro que chegaríamos às duas ou três dezenas de mortos…

Bingo!

Até o momento em que escrevo estas linhas, por volta das 18h no Brasil, o Governo do Rio Grande do Norte contabilizava vinte sete corpos: entre decapitados, desmembrados, eviscerados, destroçados, enfim, tínhamos um novo e grotesco massacre para as estatísticas de 2017.

A rebelião no presídio de Alcaçuz – o maior do RN – seguira a mesma dinâmica iniciada com os massacres no Amazonas e em Roraima. Somente nestes dois estados brasileiros foram 97 mortos em menos de um mês. Com o novo massacre no Rio Grande do Norte, a princípio, temos um novo Carandiru servido aos governantes e aos “cidadão de bem” que querem sangue e não Justiça.

Para os que não se recordam, o Massacre do Carandiru ocorreu quando policiais militares invadiram a Casa de Detenção de São Paulo. A invasão resultou em um saldo de 111 detentos massacrados pela polícia. Relatos dão conta de que o sangue escorrera pelas celas e corredores do Carandiru.

Rendeu filme, claro

É recorrente a idéia que liga a condição contemporânea dos presídios brasileiros às masmorras medievais. Não raro temos algum legislador ou burocrata tecendo loas em torno da comparação. É um equivoco, claro: nossas prisões refletem algo mais próximo.

Nossas prisões são senzalas; representam o que cultural e historicamente herdamos de nossa relação com os que padeciam os horrores delas. Nossos burocratas faltaram às aulas de História ou convenientemente esqueceram que os da Casa Grande ignoravam o que transcorria na Senzala.

Caso leia algo nos jornais portugueses sobre os massacres recorrentes em nossos presídios e sobre como nossos governantes lidam com tal questão, lembre-se de “Haiti” de Caetano Veloso e Gilberto Gil e do que a letra diz sobre a maioria dos presos e porque “são quase todos pretos ou quase pretos, ou quase brancos, quase pretos de tão pobres – e pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos”.

Nossas prisões não são da Idade Média. Vieram com as caravelas, foram inspiradas pelos navios negreiros e ganharam seus contornos recentes graças à memória nacional de um tempo nem tão antigo assim. Nossas prisões são senzalas; nossa Justiça é de capitães do mato; e nossos gestores contemplam da Casa Grande.

No Brasil, a História explica a farsa e como ela é continuada.

Sobre o autor

Alexandre Honório
Alexandre Honório
Alexandre Honório é brasileiro, jornalista, doutor em Comunicação e Mestre em Ciências Sociais. É nordestino e, portanto, tem um temperamento um tanto complexo.

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